Vez ou outra elas voam.
De dentro para fora.
Vôo bagunçado.
Cócegas.
Vez ou outra elas voam.
E eu vou dizer quando isso acontece.
Naquele dia o calor dela me atingiu antes
mesmo que meus olhos a fitassem.
Ela usava um daqueles vestidos que até o
vento gosta de soprar, só pra ver balançar, pra vê-la voar,
de várias cores.
Ela era assim também.
Uma pintura abstrata, cheia de
traços tortos e coloridos - cheios de vida.
Na boca um tom cor de rosa, e o
cabelo estava preso num coque que denunciava sua pressa.
Eu a abracei.
Quando a minha boca alcançou o
seu ouvido, eu lhe soprei uma musica qualquer.
A primeira que me veio à mente.
Só pra ela achar graça do meu tom
desafinado e sorrir.
Deu certo.
Ela ainda não sabia, nem pudera,
mas barulho da sua risada, na verdade, era a minha música predileta
Me atingiu em cheio.
Daí elas voaram, em círculos
redemoinhos
Perdi o equilíbrio.
Noutro dia, elas também voaram.
Eu estava na casa daquele nosso
amigo de anos e anos.
Ela chegou apressada, com a
respiração descompassada.
Ensopada.
Chovia lá fora.
No céu viam-se apenas nuvens
cinzas e carregadas, prontas para desabarem em gotas pesadas.
Seu cabelo, igualmente colorido,
estava todo emaranhado.
Arrepiado
Assim como o meu corpo por ela.
Ela pulou no meu pescoço, pediu
que eu a secasse com as minhas roupas e abraços.
Eu ri e tive vontade de levá-la
pra rua, pra gente tomar um banho de chuva - eu queria pra mim todas as gotas
que a tocassem.
Não me esqueço do suspiro que ela
soltou no meu pescoço enquanto eu sentia seu coração desacelerar,
como quem diz:
finalmente-achei-colo-seco.
Quis lembrá-la que ela encontrou
muito mais que isso, mais que colo.
Sussurrei:
- dar-te-ei solo pequena!
Mas foi quando inspirei profundamente,
pra encher meus pulmões do cheiro da nuca dela que elas voaram.
Ligeiras, apressadas
em desordem.
Acho que enrubesci.
O sorriso frouxo me denunciava,
com certeza.
Tive a sensação de que todos
podiam ouvir o bater das asas delas em mim.
Mal(ben)ditas borboletas.
Fizeram morada em mim, no meu
estômago.
Aparecem de repente.
Eu, sem saber
tornei-me casulo.
O seu casulo.
Mais tarde, eu viria a descobrir.
A minha borboleta tem olhos
grandes e brilhantes.
Tem nome, endereço e há de ter o
meu sobrenome.
[Juliana Alves]
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