quinta-feira, 17 de julho de 2014

elas voam

Vez ou outra elas voam.
De dentro para fora.
Vôo bagunçado.
Cócegas.
Vez ou outra elas voam.
E eu vou dizer quando isso acontece.
Naquele dia o calor dela me atingiu antes mesmo que meus olhos a fitassem.
Ela usava um daqueles vestidos que até o vento gosta de soprar, só pra ver balançar, pra vê-la voar,
de várias cores.
Ela era assim também.
Uma pintura abstrata, cheia de traços tortos e coloridos - cheios de vida.
Na boca um tom cor de rosa, e o cabelo estava preso num coque que denunciava sua pressa.
Eu a abracei.
Quando a minha boca alcançou o seu ouvido, eu lhe soprei uma musica qualquer.
A primeira que me veio à mente.
Só pra ela achar graça do meu tom desafinado e sorrir.
Deu certo.
Ela ainda não sabia, nem pudera, mas barulho da sua risada, na verdade, era a minha música predileta
Me atingiu em cheio.
Daí elas voaram, em círculos
redemoinhos
Perdi o equilíbrio.
Noutro dia, elas também voaram.
Eu estava na casa daquele nosso amigo de anos e anos.
Ela chegou apressada, com a respiração descompassada.
Ensopada.
Chovia lá fora.
No céu viam-se apenas nuvens cinzas e carregadas, prontas para desabarem em gotas pesadas.
Seu cabelo, igualmente colorido, estava todo emaranhado.
Arrepiado
Assim como o meu corpo por ela.
Ela pulou no meu pescoço, pediu que eu a secasse com as minhas roupas e abraços.
Eu ri e tive vontade de levá-la pra rua, pra gente tomar um banho de chuva - eu queria pra mim todas as gotas que a tocassem.
Não me esqueço do suspiro que ela soltou no meu pescoço enquanto eu sentia seu coração desacelerar,
como quem diz: finalmente-achei-colo-seco.
Quis lembrá-la que ela encontrou muito mais que isso, mais que colo.
Sussurrei:
- dar-te-ei solo pequena!
Mas foi quando inspirei profundamente, pra encher meus pulmões do cheiro da nuca dela que elas voaram.
Ligeiras, apressadas
em desordem.
Acho que enrubesci.
O sorriso frouxo me denunciava, com certeza.
Tive a sensação de que todos podiam ouvir o bater das asas delas em mim.
Mal(ben)ditas borboletas.
Fizeram morada em mim, no meu estômago.
Aparecem de repente.
Eu, sem saber
tornei-me casulo.
O seu casulo.
Mais tarde, eu viria a descobrir.
A minha borboleta tem olhos grandes e brilhantes. 
Tem nome, endereço e há de ter o meu sobrenome.


[Juliana Alves]
Foto do post: google

segunda-feira, 7 de julho de 2014

que pulse



Pensando bem
eu não quero um amor tranquilo
com sabor de fruta mordida.
Quero sentimento avassalador
que me tire o sossego
o vento 
do tempo.
Sentimento que mude todos os dias
para melhor - claro.
Mas que saiba aceitar as diferenças
os dias confusos,
e que após o nosso décimo sexto desentendimento
saiba perdoar e se fazer perdoável
com um beijo doce.
Sentimento que entenda que os dias não são sempre amarelos
mas que me ajude a jogar tinta colorida 
nos dias que se apresentarem muito cinzentos.
Sentimento que cultive o sorriso
o silencio e o grito
a leveza da valsa da vida.
Que avance etapas como num jogo de banco imobiliário
mas que nunca retroceda uma ou duas casas
e mais, que jamais volte ao início.
Adiante sempre
andando na mesma direção.
Sentimento que ultrapasse limites
padrões
pra eu dizer com olhos os marejados:
- é-indescritível.

Pra ver o por do sol
o mar.
Pra remar
amar
e reamar quando preciso.
Que troque dor por amor
fidelidade por sinceridade
felicidade.
Amor que seja de verdade
que divida os pecados
as divindades.
Amor pra chamar de meu
sem ser propriedade.
Amor pra voar.
Amor que saiba onde
pulsar.


  [Juliana Alves]
Foto do post: google